Gladston Salles

O amor é o tudo no nada que somos

Textos

Prof. Alexina de Magalhães Pinto

Quero deixar aqui registrado a minha admiração e reverência à Prof. Alexina de Magalhães Pinto, considerada a "primeira folclorista brasileira" que deixou um legado de inestimável valor no ensino didático de crianças e adolescentes. Convém ressaltar que além de professora e folclorista, Alexina também foi pesquisadora e escritora, tendo publicado os livros "As nossas histórias" (1907), "Os nossos brinquedos" (1909) e "Cantigas de criança e do povo e danças populares" (1916). A presente dissertação, modesta por natureza, é dividida em dois tópicos ( transição do período monárquico para o período republicano e atuação da folclorista Alexina). O meu trabalho tem como foco a problemática do ensino no Brasil, levando em conta a mencionada transição e a presença da folclorista Alexina no sistema de ensino até meados do século XX.

1 - Transição: Período Monárquico x Período Republicano
A educação mesmo após a Independência permaneceu elitista. Fato que constituía um entrave para o desenvolvimento da educação pública. Os menos favorecidos continuavam ignorantes e analfabetos. Sensibilizado com a situação, D.Pedro I em 1824 elaborou uma constituição, cujas leis promulgadas tinham como finalidade criar um sistema de educação popular e gratuito. Mas, o objetivo não se concretizou devido a falta de recursos. Além disso, o descaso era evidente. A elite tinha por hábito mandar os filhos estudar na Europa. Foi então que surgiu uma lei autorizando a criação de escolas particulares em todo território nacional. O ensino no país então ganhou força, e diversos cursos foram criados, inclusive superiores; porém a maioria dos alunos eram provenientes da elite. Basta dizer que apenas 3% da população tinha acesso às escolas básicas, e o analfabetismo atingia o índice de 80%. Não demorou muito, e em 15/10/1827 foi promulgada uma lei determinando a criação de escolas elementares em todas as cidades, vilas e lugarejos. Tendo sido adotado o método inglês Lancaster em virtude da falta de verbas. O referido método consistia na existência de um único professor responsável por diversas escolas auxiliado por um aluno mais adiantado como monitor. Porém, não deu certo. E apenas um reduzido número de escolas públicas acabaram se transformando em escolas de alfabetização. E essa situação deplorável permaneceu por um longo tempo...
Na segunda metade do século XIX um conflito de interesses na área econômica envolvendo os cafeicultores da região do Vale do Paraíba ( maior produtora de café ) que apoiavam a monarquia e os cafeicultores do Oeste Paulista opositores do poder centralizador do Império deu origem a uma grave crise que abalou o regime vigente. Logo os embates políticos se multiplicaram, e a propaganda republicana ampliou-se de modo considerável, dando origem ao partido republicano que foi formalmente criado em 1870 no Rio de Janeiro. Por outro lado, o exército brasileiro aumentava cada vez mais o contingente de populares em suas fileiras, e entrava em atrito com o elitismo do regime monárquico. Com isso o Império sofreu desgaste. E assim que terminou a Guerra do Paraguai em 1870, o exército brasileiro passou a ser considerado o salvador nacional. Outro fato político marcante foi o descontentamento dos grandes fazendeiros com a monarquia em virtude da Abolição da Escravidão em 1888; pois os fazendeiros dependiam muito da mão de obra escrava. No ano seguinte, o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República do país. Na fase republicana a figura do patriarca assumiu um papel preponderante no ambiente familiar com repercussão na sociedade da época. Os membros da família e agregados viviam sob o poder centralizador do patriarca que ditava as ordens como um soberano. As mulheres exerciam papel secundário, vale dizer, quase insignificante. Não tinham voz, nem vez... À elas cabia ser uma boa "parideira" e cuidar da prole. Quanto às crianças, coitadas, viviam sob o domínio do medo, mergulhadas num mundo sombrio, sem direito de viver a infância com plenitude. Eis algumas citações que servem para ilustrar o assunto:
... "E a família patriarcal era o mundo do homem por excelência. Crianças e mulheres não passavam de seres insignificantes e amedrontados, cuja maior aspiração eram as boas graças do patriarca."
... "Até meados do séc.XIX a casa grande era o modelo perfeito do fechado mundo patriarcal."
... "Nos primeiros anos da República, a família patriarcal começa a mostrar sinais de fraqueza. Não que ela fosse incompatível com o novo regime. São as cidades, as novas profissões, a luz elétrica, os bondes, os imigrantes, as lojas comerciais, as indústrias que ameaçam o patriarca."
( Revista Nosso Século - São Paulo - Abril Cultural - 1980 - págs. 96 e 98 " Memória Fotográfica do Brasil no Século 20 - 1900/1910 ")

2 - Atuação da folclorista Alexina
Antes de escrever sobre a "primeira folclorista brasileira", vale a pena fazermos uma reflexão sobre a problemática do ensino na fase inicial do período republicano. Para tanto, cito um trecho coletado, que acredito ser de grande valia:
... "A palmatória era o terror da meninada. Especialmente nas sabatinas de tabuada, quando os "bolos" eram distribuídos a granel. Bolos, varadas, puxões de orelha ou outros castigos, como passar a aula inteira de pé na frente da classe, com um livro aberto nas mãos. Isto quando a criança não era obrigada a escrever centenas de vezes - devido a um gaguejo ou uma falha da memória - "devo decorar minhas lições até ser capaz de repeti-las corretamente". E a maior parte do tempo passado na escola era gasto em repetições em voz alta o principal "método" de ensino."
( Revista Nosso Século - São Paulo - Abril Cultural - 1980 - pág. 128 "Memória Fotográfica do Brasil no Século 20 - 1900/1910")
Mas, quem foi a folclorista Alexina? Uma jovem professora sonhadora? Excêntrica? Idealista? Qual o adjetivo mais apropriado para defini-la? Confesso que não sei. O fato é que logo no início de minha breve pesquisa sobre a trajetória de vida dessa brilhante folclorista, algo me surpreendeu... Alexina, nascida em 1870 na localidade de São João del-Rei, Minas Gerais; já no ano de 1883 fez concurso para o magistério na Escola Normal de sua cidade natal e foi aprovada; tendo sido nomeada como professora para a cátedra de desenho e caligrafia. Portanto, começou a lecionar com apenas 13 anos de idade! Até parece que estava predestinada a uma carreira vitoriosa... Depois de pedir exoneração do cargo que exercia, ingressou na Escola Normal no Rio de Janeiro. Aos 20 anos de idade viajou sozinha para a Europa, demonstrando a todos o seu espírito independente. Consta que no continente europeu frequentou cursos e entrou em contato com os pioneiros da "escola ativa" ou "escola viva" ( pensamento inovador contrário à escola antiga fundamentada na memorização e no bloqueio à espontaneidade ). Como professora acreditava na escola dinâmica capaz de aceitar e valorizar os jogos infantis como instrumento de aprendizado e estímulo ao universo criativo. Pregava o aproveitamento da natureza lúdica da criança para fins didático. Como professora simpatizante da aprendizagem global, adotava vários meios para despertar a curiosidade e interesse dos alunos em aprender. Era contra a cartilha soletrada. E foi a primeira professora que deixou de lado a palmatória. Não submetia os alunos a nenhum tipo de castigo físico. Preocupada com o elevado índice de analfabetismo, adotou métodos de ensino inspirado no escolanovismo (caráter regenerador com proposta de atividades extracurriculares e nada de memorização na educação). O trabalho desenvolvido por Alexina não se restringia apenas à instrução; exercia também de modo efetivo uma função civilizadora; e demonstrava anseio por uma sólida identidade nacional brasileira. Sempre divulgava lições de moral, a importância dos hábitos saudáveis, virtudes e valores indispensáveis para os futuros cidadãos. Enfim, como professora teve uma atuação invejável, marcada por ações inovadoras que contribuíram para o aprimoramento do ensino didático. Mas, qual a razão do título "primeira folclorista brasileira"?
Eis, minha resposta resumida:
Alexina foi quem usou pela primeira vez material folclórico na elaboração de livros didáticos; e inovou utilizando literatura cívico-pedagógica voltada às crianças. Através de sua atuação inovadora chegou ao ponto de "mergulhar" na cultura popular e coletar dados com o propósito de utilizá-los para fins didáticos. E nesse universo infantil, onde as brincadeiras se multiplicam, sempre encontrava potencial educativo. Muito criativa e musicista, sabia como aproveitar as cantigas de roda na educação dos seus alunos. Via nos brinquedos uma função integradora. Sabia como ninguém recriar as históricas folclóricas. Atuando como uma verdadeira pesquisadora, coletava dados folclóricos, até então desprezados, e os vinculava com muita inventividade às aulas de educação física,instrução moral e cívica, higiene e história pátria. Aproveitava os brinquedos para ressaltar os conceitos de tolerância, espírito crítico e o domínio de si mesmo.
" Para compor ainda o destaque de sua trajetória profissional, Alexina fez um uso muito particular dos chamados brinquedos infantis, mesmo esses estando ligados na época ao prazer e totalmente desligados do mundo educacional, a folclorista, justificava o seu uso, afirmando que, o ócio quando bem orientado, educa, sana e une." ( Maria Lúcia Monteiro Guimarães, Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, 2017, Exposição , "Alexina de Magalhães Pinto: Do Mito à Realidade")
Para Alexina as "impressões" obtidas na infância funcionam como base para a criação de um sentimento pátrio. Creio que o trabalho pioneiro desenvolvido pela "primeira folclorista brasileira" foi um marco que despertou o interesse de educadores, e historiadores ávidos de um "manancial" de riqueza da cultura popular no país. Pena que a jovem mineira formadora de professoras e professores, e que realizou um trabalho didático e pedagógico revolucionário da Educação na Velha República não tenha tido até hoje o reconhecimento merecido. Mulher a frente de seu tempo, notável folclorista, patriota, de pensamento progressista, e que enfrentou vários desafios, permanece quase esquecida. Sabe-se que após ficar surda, deixou de lecionar; vindo a ter uma morte trágica no ano de 1921.
Ao concluir minha dissertação, fico imaginando àquela jovem professora, contestadora de costumes, percorrendo de bicicleta e com roupas de ciclismo, as ruas de São João del-Rei , para o espanto da sociedade ultra conservadora...

Dissertação apresentada durante o Curso de Pós Graduação de História e Cultura no Brasil - 2020 - Universidade Estácio - RJ
Referência bibliográfica:
Revista Nosso Século, SP, Abril Cultural, 1980, N785, Vol.1, 80-0890, "Memória Fotográfica do Brasil no Século 20", Vol.1 - 1900/1910
Site: http://fabiopestanaramos.blogspot.com (Título: Para entender a história... | Post.: A Educação no Brasil Império)
Alexina de Magalhães Pinto: Do Mito à Realidade ( Exposição ante o Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, defesa da Patrona da Cadeira 16, realizada pela Prof. Maria Lucia Monteiro Guimarães, Mestre em Educação, 2017
Gladston Salles
Enviado por Gladston Salles em 05/08/2020
Alterado em 20/08/2020


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