Gladston Salles

O amor é o tudo no nada que somos

Textos

Alexina de Magalhães Pinto / Música Popular e Identidade
Nacional

Minha modesta dissertação é dividida em três tópicos. O primeiro é uma pequena introdução, o segundo a atuação de Alexina de Magalhães Pinto e Mário de Andrade, e o terceiro versa sobre a construção da identidade nacional brasileira a partir da música popular.

1 - Introdução:
A pergunta "o que é música" tem sido alvo de discussão há décadas. Alguns autores defendem que música é a combinação de sons e silêncios de uma maneira organizada. Vamos explicar com um exemplo: um ruído de rádio emite sons, mas não de uma forma organizada, por isso não é classificado como música. Essa definição parece simples e completa, mas definir música não é algo tão óbvio assim. Podemos classificar um alarme de carro como música? Ele emite sons e silêncios de uma maneira organizada, mas garanto que a maioria das pessoas não chamaria esse som de música.
Então, o que é música afinal?
De uma maneira mais didática e abrangente, a música é composta por melodia, harmonia e ritmo.
( Apostila de Teoria Musical - www.descomplicandoamusica.com/o-que-e-musica/)
Especificamente com relação à música folclórica, vale destacar o caráter da espontaneidade, e o fato de ser uma "criação coletiva" (autor desconhecido) vinculada à grupos étnicos, regionais e nacionais. Não resta dúvida que constitui uma herança cultural que se perpetua de geração em geração. Creio que podemos considerar as músicas folclóricas como canções tradicionais enraizadas na cultura popular. Como exemplo, vale a pena destacar: O Cravo e a Rosa, Marcha Soldado, Se essa rua fosse minha, Peixe vivo, Escravos de Jó, Fui ao Tororó, A canoa virou, Boi da cara preta, Capelinha de melão, etc... E quando se fala em música folclórica e popular, logo" vem à tona" as danças; tais como Samba de Roda, Maracatu, Frevo, Baião, Catira, Quadrilha, etc...
E o que dizer sobre o universo lúdico onde a criança se expressa com plenitude? Acho que basta dar como exemplo as Cantigas de Roda. E o recurso utilizado pelas mães para acalmar e fazer adormecer o bebê inquieto? É lógico que todo mundo sabe o que é canção de ninar. Para encerrar o presente tópico, levando-se em conta que música está intimamente ligada a movimento, cito como exemplo o Carnaval, o Congado, a Folia de Reis, e as Festas Juninas.

2 - Atuação de Alexina de Magalhães Pinto e Mário de Andrade
Alexina considerada a "primeira folclorista brasileira" ocupa posição de destaque quando o assunto é folclore; e não poderia ser diferente. Teve uma atuação brilhante e digna numa época em que o folclore era algo desprezível e ignorado pela elite cultural. Deixou um legado de inestimável valor no ensino didático de crianças e adolescentes. Como professora e pesquisadora coletava dados na cultura popular, e com muita criatividade os aproveitava na educação de seus alunos. Alexina foi quem usou pela primeira vez material folclórico na elaboração de livros didáticos. Convém assinalar que também era musicista e incluía as cantigas de roda nos seus projetos educativos. Não resta dúvida de que ela realizou um trabalho cívico - pedagógico revolucionário da Educação na Velha República. A "primeira folclorista brasileira" no campo da música, teve como foco principal as cantigas populares infantis. E soube com maestria transformá-las em ferramenta inovadora de grande eficácia na metodologia educacional. Na percepção da professora, as crianças atraídas por esse novo método de aprendizagem (antes apenas de caráter recreativo) ficariam mais alegres, desinibidas, motivadas e curiosas; o que resultaria num melhor rendimento escolar. Tal iniciativa, alicerçada em cantigas genuinamente nacionais tinha uma conotação cívico - pedagógica louvável. Outro aspecto a ser considerado é que as cantigas folclóricas poderiam ser usadas pelos educadores e pais com objetivo de educar as crianças nos ambientes escolar e familiar. Alexina era muita versátil no ato de ensinar, tanto que através das cantigas populares demonstrava os erros da fala e fazia as devidas correções de acordo com o português formal. Inclusive dava orientações de natureza comportamental.
Com referência à Mário de Andrade, convém mencionar que exerceu várias atividades, entre as quais, foi poeta, escritor, musicólogo, folclorista, etc. Pioneiro no campo da etnomusicologia. Participou do movimento literário denominado modernismo, e ganhou enorme projeção com o livro "Pauliceia Desvairada" em 1922. Na verdade, foi um dos "pilares" na criação da famosa "Semana de Arte Moderna" que reformulou a literatura e as artes visuais no Brasil. Publicou o romance "Macunaíma" em 1928. Realizou um trabalho de grande importância cultural no campo da música e folclore popular. Como pesquisador catalogou músicas do Norte e Nordeste brasileiros. Foi um dos expoentes na "Missão de Pesquisas Folclóricas" (um dos primeiros projetos multimídia da cultura brasileira) com divulgação de músicas de dançar, cantar, trabalhar e rezar. Para Mário, a arte nacional está enraizada na inconsciência do povo, e o artista que queira fazer uma música nacional pura e autêntica deve se inspirar e encontrar subsídios nos dados do folclore. Destacava como exemplo de peculiaridades da cultura popular o aspecto oral, anônima, coletiva e rural. Devendo ser incluído também nessa linha de pensamento o fato de não ser comercial.

3 - Construção da identidade nacional brasileira a partir da música popular
Creio que a música popular é um dos elementos formadores da identidade nacional. Dentro desse contexto, podemos afirmar que a preservação de nossas "raízes" é algo imprescindível. E, cabe aos pais e educadores a tarefa de usar meios adequados para despertar nas crianças, desde cedo, o sentimento pátrio. Caso contrário, a construção da identidade nacional brasileira pode não prosperar. Talvez, não seja exagero, abordar essa questão com uma reflexão mais profunda. Quero dizer, a referida "construção" deve ter caráter permanente. Alexina de Magalhães Pinto e Mário de Andrade, como folcloristas muito contribuíram para a concretização desse objetivo deixando um legado valioso. Alexina, uma mulher a frente do seu tempo, com pensamento progressista, e ideal nacionalista, acreditava que a música popular que se ouvia apenas no espaço da cozinha nos casarões, poderia ganhar a sala através da chamada "ópera lírica nacional" com a participação ativa da professora e folclorista. Vale lembrar, que na cozinha era onde os empregados domésticos entoavam as cantigas ditas marginais, folclóricas, rurais, tradicionais, enfim, popularescas. Essa concepção, entretanto, foi contestada por estudiosos que viam nas manifestações populares a capacidade de interpenetrar em diferentes ambientes; sendo portanto, a divisão entre cozinha e sala artificial. Na visão da "primeira folclorista brasileira" a música popular só poderia ser reconhecida como fonte de autenticidade nacional quando legitimada pelo erudito. Para a professora, a canção popular teria que merecer a atenção e empenho do intelectual para então servir de inspiração nacional. Fica claro que Alexina trabalhava intensamente com foco na educação infantil e unidade nacional. E, por intermédio de sua ação cívico - pedagógica divulgava os valores e tradições nacionais com o propósito de promover um resgate. Ao pesquisarmos o renomado Almanaque Brasileiro Garnier, entre 1908 e 1912, encontramos o registro de sua trajetória profissional, o que demonstra a sua incontestável grandeza.
Mário de Andrade, por sua vez, entendia que a verdadeira música popular era isenta de qualquer interferência do urbanismo. Não era atingida em sua "pureza" pelo popularesco e pela influência do internacionalismo.
No universo do debate acadêmico sobre cultura popular José Miguel Wisnik faz interessantes considerações referentes ao pensamento de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Em sua análise crítica, Miguel afirma que a proposta de Mário de Andrade que contempla a junção da cultura erudita com a cultura popular visando a formação da cultura brasileira não teve a devida aceitação em virtude do país se encontrar na época em fase de industrialização e com inúmeras transformações no meio social. Mas, acentua que a contribuição de Mário de Andrade é inegável; e dá vários exemplos, entre os quais , Macunaíma. Quanto à proposta de Oswald, favorável a uma interpenetração ( primitivo com o moderno tecnológico ) onde ficaria evidente o "país da mistura" que deveria aceitar e assimilar qualquer manifestação de cultura moderna, inclusive estrangeira; na opinião de Miguel, parece mais compatível com o mundo atual. E ressalta "a combinação de misturas que é o Brasil" dotado de incrível capacidade de tomar e transformar a manifestação da cultura moderna e estrangeira, fazendo emergir uma nova "faceta" com a marca da criatividade brasileira ( exemplo: carnaval - coreografia, enredo, instrumentos, plasticidade, gente alegre; um somatório de artes entrelaçadas que dão origem a um grandioso espetáculo musical ).
O debate acadêmico por certo haverá de continuar, ainda mais em se tratando de um tema tão relevante como é a identidade nacional. Talvez, o grande desafio seja manter essa identidade no campo da música fortalecida o suficiente para não se descaracterizar, apesar da maciça influência estrangeira proveniente da "globalização".

Dissertaçaõ apresentada durante o Curso de Pós Graduação de História e Cultura no Brasil - 2020 - Unversidade Estácio - RJ
Fontes Consultadas:
Daniela Diana
Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (UNESP)em 2014
Mário de Andrade
Internet: Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre
Pesquisas Folclóricas – Mário de Andrade
mario- de- andrade.blogspot.com/2009/07
José Miguel Wisnik
Vídeo YouTube – Palavra (En)cantada
www.todamateria.com.br/musicas - folcloricas/

 
Gladston Salles
Enviado por Gladston Salles em 05/08/2020
Alterado em 20/08/2020


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