Gladston Salles

O amor é o tudo no nada que somos

Textos

 
 
Na escola as "tias' se revezavam nos ensaios dos alunos do 1º Ano Fundamental para a apresentação da dança em homenagem ao 'Dia dos Pais". No olhar de cada criança o retrato da ansiedade... Cada movimento das mãos e dos pés era repetido "mil vezes" para não errar no dia da festa.
- Vamos lá, Rosinha, não vai errar dessa vez!
E a menina superando suas limitações parecia flutuar nas nuvens amparada pelos amiguinhos ocultos, os anjos sapecas. Sim, porque a Rosinha tinha tanta vontade de acertar e fazer bonito, que seus pés se desprendiam do chão, e ela entrava no seu mundo de fantasia longe do pátio da escola. A voz da "tia" que lhe chamava atenção era substituída pela voz doce da "fada madrinha". Muitos amiguinhos do mundo imaginário infantil da menina naquele momento lhe estendiam a mão, e ela se sentia mais segura. E, assim entre erros e acertos, a menina ia prosseguindo na sua dança perfeccionista mantendo em segredo a ajuda que recebia dos seus fiéis amigos do "Reino Encantado" onde nenhum adulto tem acesso. Bem próximo ao "Dia dos Pais", Rosinha antes de dormir rezava ao "Papai do Céu" e pedia para ajudá-la também no grande desafio de dançar maravilhosamente em homenagem ao seu  pai. E nessas noites abençoadas o sonho era lindo e ela acordava na manhã seguinte com muita disposição (pronta para o ensaio) e confiante. Os preparativos para a festa na escola estavam sendo concluídos, quando uma das "tias" responsáveis pelo grande evento perguntou às demais sobre qual o título que deveria ser escolhido. Não demorou muito, e surgiu a frase original -  “Pai, vem dançar comigo!” -  que agradou a todos.
Rapidamente o letreiro foi confeccionado e colocado em posição de destaque no pátio. Na véspera da festa todo o trabalho tinha sido finalizado. Agora, era só esperar... Mas, a realidade da vida muitas vezes é cruel. O pai de Rosinha é um pai "ausente". Vale dizer, completamente indiferente e irresponsável. Não participa de nada. Não ajuda na criação da menina. Não presta nenhuma ajuda financeira para as despesas necessárias. Rosinha que vive apenas com sua mãe (mulher guerreira) não compreende a devida dimensão do problema. Ela sabe que o pai existe. E já esteve com ele pessoalmente algumas vezes. E na sua inocência, seu pai também é um super-herói como tantos outros. Ledo engano. Agora, Rosinha vai participar pela primeira vez de uma dança em homenagem ao "Dia dos Pais". Antes, a mãe não a levava para a escola nessas ocasiões para evitar constrangimento. Dessa vez, porém ficou difícil. Rosinha agora está no 1ºAno Fundamental e só fala na dança que será realizada especialmente para os pais. Ela sonha com isso. E todos os alunos nessa festa irão abraçar e dançar com seus pais. É que Rosinha está crescendo, e começa a sentir de modo mais acentuado a ausência do pai. Enfim, chega o grande dia... Ela está pronta e quer dançar como nunca dançou na vida. Seus olhos brilham com intensidade. O entusiasmo é evidente. E lá vem a turma chegando em direção ao palco... Rosinha olha para todos os lados e nada de ver seu pai, o grande homenageado do dia. Só consegue enxergar rostos de homens estranhos. A apresentação começa e ela dança esperando avistá-lo a qualquer momento. Ao final, ecoa no salão a voz da “tia” que comanda o espetáculo:
- Agora, as crianças vão ao encontro de seus pais para convidá-los a dançar!
E Rosinha corre sem saber pra onde... São tantos convidados. Uma lágrima ameaça cair de seus olhos. Cadê seu pai?
De repente, surge um homem amadurecido,  mais do que todos aqueles pais que estavam sendo homenageados... E Rosinha ao vê-lo corre ao seu encontro e o abraça com carinho. Em seguida, visivelmente feliz lhe faz um convite:
- Vovô, vem dançar comigo!
E aquele homem idoso com sorriso jovial lhe responde:
- Claro, minha querida. Vovô te ama!         
 
 

 
Gladston Salles
Enviado por Gladston Salles em 10/08/2019
Alterado em 07/09/2019
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