Gladston Salles

O amor é o tudo no nada que somos

Textos

                                          
 
                         A "BRUXINHA" E O "JOÃO DE BARRO"
                                                                         
Ainda era bem cedinho quando a “Bruxinha” caminhava no parque rodeado de muito verde e pássaros sem conta. Parecia até um sonho. Uma ficção em meio a tanta poluição que assola a cidade de São Paulo. E como sempre fazia elevou o pensamento a Deus e agradeceu por essa dádiva. Sim, porque bem próximo dali, se agigantando cada vez mais estava o maior centro financeiro do país com suas mazelas sociais e prédios arquitetônicos querendo “espetar” o céu. Ao apressar o passo respirou profundamente e se concentrou na meta de concluir o percurso de 4,5 km sem vacilar. Apesar do tempo escasso, ela tinha de aproveitar essa “horinha” benfazeja para renovar as energias. Ainda mais que o céu cinzento deu lugar a uma manhã ensolarada. E os inúmeros compromissos logo teriam de ser cumpridos.
- Que bela manhã! Exclamou, enxugando o suor da testa e fitando o azul do céu.
Foi então que viu numa árvore algo que a encantou de modo significativo. Parecia que ele estava ali como mero observador ou quem sabe um refugiado assustado diante daquela gente madrugadora que caminhava sem parar e invadia aquele território, que mais parecia um excepcional reduto de seres alados. Era o famoso “João de Barro”. Intrigada a “Bruxinha” pensou nas inúmeras razões daquele pássaro aparecer justamente naquela árvore existente no parque encravado numa verdadeira “selva de pedra”. Afinal raramente essa espécie forrageia nas árvores, e prefere os galhos baixos e troncos secos para nidificar.
- Ah! Já sei... Só pode ser o crescente desmatamento. A degradação do meio ambiente. A ambição desmedida do homem que não respeita a natureza. Coitadinho. Deve estar temeroso. Não com os seus inimigos naturais, entre os quais o gavião-carijó, o anu-branco e a gambá. Mas, sim com o bicho homem. Como seria bom vê-lo cantando junto à entrada do seu ninho! Mas, por favor, que não seja em poste elétrico.
Tem razão a “Bruxinha” quando demonstra suas preocupações. Em zona urbana onde está adaptado, o “João de Barro” tem o hábito de usar postes elétricos para nidificação e tem causado inúmeros problemas na rede de eletricidade.
Pensando consigo mesmo, a “Bruxinha” acrescentou:
- Quantas adversidades esse pássaro enfrenta. Além do pardal que costuma expulsá-lo de seu ninho, ainda tem o azulão que deposita seus ovos no ninho para que o casal de “João de Barro” crie o filhote alheio. Trabalhador incansável durante todo o ano passa envolvido em construções de ninhos em forma de forno feitos de barro fresco que depende do regime de chuvas. É realmente um pássaro de grande simbolismo. Serve de referência para o homem. Quando por alguma razão perde um ninho, reconstrói imediatamente outro com a mesma disposição e coragem. E como explicar o modo inteligente com que ele constrói o ninho com a porta de entrada sempre direcionada para o leste para que possa receber os raios solares? Puxa! Que pássaro admirável.
Logo após o término da caminhada, a “Bruxinha” ergueu sua garrafa para beber água e fazer um rápido descanso e criar novo ânimo para enfrentar a etapa seguinte constituída de exercício com bicicleta e alongamento. Foi então que teve uma grande surpresa: viu bem diante de seus olhos o “João de Barro” andando de modo esquisito, pausado, e ainda por cima alternando com pequenas corridas...
Diante do fato pitoresco e sem conseguir conter o sorriso a “Bruxinha” foi logo dizendo:
- Seu engraçadinho... Quer me demonstrar que também é atleta?
 
Obs. “Bruxinha” é o apelido carinhoso de uma amiga paulistana.
 
 
 
 
 
  
Gladston Salles
Enviado por Gladston Salles em 07/06/2013
Alterado em 22/09/2017
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