Gladston Salles

O amor é o tudo no nada que somos

Textos


 

MORNA MANHÃ

O velho marinheiro exausto resolve descansar por alguns instantes aproveitando a brisa do mar e a sombra da antiga amendoeira. E se deixa levar pelas lembranças tantas e quimeras. E adormece como quem precisa de um sono profundo e reparador. Ou quem sabe rejuvenescedor. E tem um sonho daqueles que deixa a gente com vontade de abraçar o arco-íris e esquecer os desenganos. De querer tomar um banho de chuva. De sorrir como um menino travesso. E de querer cantar de alegria para o mundo todo ouvir. O velho marinheiro sonha que é o rei dos mares. O mais valente e audacioso. Capaz de enfrentar as piores tormentas. Em cada porto uma linda mulher ansiosa o aguarda de braços abertos e coração repleto de amor pra lhe dar. Ele não tem do que se queixar. É amado e reconhecido como o melhor conquistador dos sete mares. Respeitado e admirado por todos que o seguem. E não tem rugas. É jovem e aventureiro. Braços fortes e cheio de energia. Cabelos negros. Olhos verdes como os verdes mares. E não sabe o que é tristeza. É um homem do mar abençoado pelos deuses. E tem estórias verdadeiras pra contar. Não precisa apelar por fantasias. Não é um marujo cansado de mar. Pelo contrário ele respira mar. E cada vez mais se encanta com a vida que estava predestinada. E se energiza com o ar marítimo. Nunca amaldiçoa o trabalho duro. Pelo contrário para ele o desafio do mar renova o seu entusiasmo de viver. Céu e mar emoldura sua vida. E isso muito o agrada. Quando se vê diante do mar bravio nunca esmorece. E com coragem invulgar prossegue em sua jornada. Nos momentos de calmaria, faz suas orações de agradecimento ao Pai Celestial, antes de usufruir das águas tranquilas.
O sono parece não ter fim... E o velho marinheiro através do maravilhoso sonho reencontra a felicidade. Mas o seu barco antigo, simples e remendado e ancorado próximo dali o aguarda. O marulhar das ondas e a morna manhã, entretanto, parece conspirar a favor do velho marinheiro que não acorda para a dura realidade. Ele vive solitário e depende de favores. Não tem amigos, com exceção do cão fiel que o acompanha sempre. O trabalho é árduo e desgastante. No seu corpo as marcas do tempo e vicissitudes deixam claras o quanto ele precisa de repouso, ou quem sabe um remanso, um acalanto. Mas o tempo passa e ninguém de nobre coração aparece para lhe dizer uma palavra amiga capaz de trazê-lo de volta ao mundo de esperança.
Na morna manhã uns vozerios de crianças em busca de conchas na areia  sem querer despertam o velho que aturdido volta ao seu mundo real. Acabou-se o sonho... Num instante o rei dos mares cede lugar ao velho marinheiro sofrido, cujas mãos calejadas e enrugadas e sedentas de carinho seguram uma conchinha de rara beleza para oferecer à criançada.
 
 
                                                      
 
 
 
 
 
Gladston Salles
Enviado por Gladston Salles em 01/06/2013
Alterado em 09/09/2017
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