Gladston Salles

O amor é o tudo no nada que somos

Textos

 
CALENDÁRIO CHEIO DE ONTENS


O velho com o “calendário cheio de ontens” no bolso do paletó surrado, sem perspectiva e sem sonhos percorre caminhos sombrios. Ele vive do passado e mergulhado em tardes cinzentas não percebe a luz do sol que sempre ressurge no horizonte... Cabisbaixo e com o olhar triste descansa no banco  da praça e ignora o manacá florido. Aliás, ignora tudo que nos dá motivação e sensação de beleza estética. O velho perdeu o rumo e a capacidade de apreciar o belo na sua forma mais simples. Nada é capaz de fazê-lo sorrir de verdade. Nada o faz acreditar no amanhã. Nada o retira do marasmo. Vive no atoleiro de lembranças amargas. Caiu no abismo da desesperança e do tédio. E assim tão somente aguarda a morte que tarda... E quando alguém insiste em convencê-lo que a vida é bela e que nem tudo está perdido, ele simplesmente desconversa e de modo grosseiro se afasta. Ninguém conhece a sua história. Ninguém sabe de onde ele veio. Apenas todas as manhãs já se acostumaram a vê-lo sentado no banco daquela praça alheio a tudo que acontece a sua volta. A meninada brinca. A primavera chega. O casal de namorados se beija. Voa a borboleta. A criança sorri. O azul no céu é lindo. Gente idosa faz ginástica. Mas o velho... Ah! Que pena continua velho...



 
Gladston Salles
Enviado por Gladston Salles em 22/03/2011
Alterado em 09/09/2017
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